sábado, 19 de abril de 2008

OLHAR SEM VIDA

Havia espantado a todos, com seu jeito rude e grosso. Só permaneciam ao seu lado aqueles que a amavam incondicionalmente.

Mãe de sete filhos, dois deles mortos, avó de 10 netinhos e bizavó de 3. Essa é a mulher que comandou a geração da família mais desunida que se conhecia. Não por culpa dela, óbvio. Talvez, por culpa de uma criação e educação rígida e severa.

Essa mulher tão forte completava 85 anos e, entre grosserias e mau humor, via-se apenas um senhora necessitada de carinho, de atenção. Uma atenção dispensada por alguns de seus filhos, os quais não mereciam sair dela. Mas, de quem é a culpa?

Ouvia-se relatos diversos dessa senhora. Certamente, ela não era igual às vovozinhas de conto de fadas - meigas, adoráveis e com paciência pra contar histórias. Estórias ela até tinha, mas paciência... Quando estava de bom humor, narrava sua vida, dramatizando-se vítima na maioria dos casos. Contara que, no passado, sua mãe morreu de câncer, e seu pai suicidou-se logo após obrigá-la a casar. Não se sabe se havia amor verdadeiro entre ela e o marido. Tempos depois, ele a largava por outra mulher.

Daí, parte a indecisão do que, de fato, transformou seu gênio. Sempre fora filha única e, como tal, sustentava um egoísmo e melancolia proveniente da solidão. Batalhou, passou fome, para cuidar de seus filhos. Mesmo dependendo dos outros, nunca aceitava ter amigos. Não os tinha.

Com o tempo, vieram os efeitos resultantes de seus inumeráveis remédios. Ela camuflava a hipocondria, mas não enganava. A olhos mais atentos, via-se nela o desestímulo de viver. Qualquer gesto de carinho era podado como uma planta ruim, sem dó nem piedade. Repetia, a quem ousasse se aproximar, que tinha raiva da vida que trouxera tantos desgostos pra ela.

Todavia, desse lago fundo, havia uma garotinha que tentava, a todo custo, fazê-la respirar. Essa garotinha, que fora nomeada por ela de "ovelha negra" por falar as coisas que ninguém mais dizia, era a única que conseguia, a muito custo, saber de suas aventuras do passado. Essa garotinha, que sentava ao seu lado pacientemente, era a mesma garotinha que fora surrada muitas vezes por ela, que ouvia não ser neta e não ter parentesco com ela, por tão somente tentar impedir a ingestão sem indicação de remédios fortes. Essa garotinha não era santa, porém conseguia entender como aquela senhora havia sofrido. Como era difícil envelhecer doente, sem amigos, sem filhos, sem alguém que pudesse lhe estender a mão em um gesto de carinho. Aquela garotinha sentia falta de ter uma vovó amigável, que fizesse bolo de chocolate para seus colegas, que sorrisse na foto de seu aniversário, que passasse a mão na sua cabeça quando sentisse falta de sua mãe. Sabia que as coisas seriam melhores se a avó fosse uma pessoa melhor.

Por que ela não tentava ser diferente? Por que entregava-se, a cada dia, ao seu fúnebre e ocasionado isolamento? Por que fechava-se no passado, se havia uma chance de melhorar o presente? Por que escolher o sofrimento como único passatempo da vida?

Mas, muito tarde para mudar. Ela havia rasgado todas as fotos que a levassem de volta ao seu eu. E o que restava eram apenas inexpressividades de existência, rugas que acentuavam-se no seu olhar de tristeza e suas lembranças amargas e rancorosas. Mesmo fazendo todos sofrerem, a senhora acreditava que assim, morreria melhor.

E a garotinha chorava. Temia que os olhos de sua avó só se abrissem pra seu amor quando não pudesse mais abraçá-la.

(em prantos...)

33 comentários:

Sérgio Figueiredo disse...

Minha Querida Amiga,

Um Bom Domingo para ti.

O teu post é uma estória muito bonita, apesar de mostrar pelas palavras, a provocação do sofrimento, a pouça força para viver, o muito tempo de cansaço, a dor do seu próprio sofrimento, mas vida de alguém que aparecendo, dá Amor...Ama.

Beijo

comecardenovo disse...

As avós têm sempre um encanto especial para os netos, memso que para a restant ehumanidade sejam pessoas severas... A minha era assim, ams eu adorava-a

Pena disse...

Doce Amiga:
Essa garotinha era encantadora. Doce. Solidária e linda.
Ter uma avó é belo, mas uma avó autêntica, como todas as avós do mundo.
Fantástica garotinha. Fascina na sua terna entrega.
Merce um Mundo grandioso de pureza e beleza.
Li com comoção. Muito sensbilizado e atento.
Beijinhos amigos.
Sempre a estimá-la e a respeitá-la.
Com encanto pelo que é.
Escreve com delicia

pena

Paulo Tomás Neves disse...

Por muito que as pessoas exteriorizem afastamento, na realidade todos precisam(os) de amor

Mario Rodrigues disse...

Existem muitas pessoas assim, amiguinha. Por terem sofrido muito no passado, nao confiam mais no presente. E muitas, nem vale a pena tentar a aproximação, pois estao tao fechadas na sua concha, que se torna impossivel penetrar. É só ter paciencia e rezar para que algum dia essa vovozinha deixe penetrar a sua concha. Mas nunca deixes de tentar. Pode ser que o milagre se dê. E mesmo que seja no ultimo instante, nao se perdera nada, porque assim irá em Paz encontrar o Criador.

Um bom Domingo

Bjinho amigo

Mario Rodrigues

Divinius disse...

Que bonito...
Bom fim-de-semana*)

lua prateada disse...

Linda e triste história amiga, maséssa é a realidade de muita gente e, muito triste é ser-se garota assistindo a tudo isso, pois mais impotentes nos sentimos , e enfim tanta coisa poderia ser dita por isso
foi assim...no sorriso do tempo
Envelhecido pelo vento!...
Mas com cara feliz por perdurar
Que passei deixando o verbo amar...
e um lindo domingo.
Beijinho prateado com carinho
SOL

Kênia Garcia disse...

Os corações realmente são um tanto diferentes entre si. Uns mais flexíveis outros não. Mas como não podemos transformar, nem sempre, estes corações, o jeito é aceitá-los e amá-los como são.

Beijos!

Arte Autismo e www.arteautismo.com disse...

Oi Olhos pretos,
Obrigada por sua visita lá no Arteautismo e nos brindar com suas palavras. Voce tem uma irmã gêmea especial e tenho certeza que ela te ensinou ser esta pessoa sensível e delicada que voce é , a gente vê pelo seu blogger poético.
Lindo este post da sensibilidade de um olhar, que só por si carrega toda uma vida de amargura , mais que a garotinha viu algo de bonito e humano nele e esta era a parte que ela mais queria para si, a bondade a experência e o amor escondidos naquele olhar, que com certeza também existia. O olhar daquela garotinha conseguiu ver além do que a vovó podia imaginar.... e era só uma garotinha...
Amei....
um beijo grande!
Ray

Agulheta disse...

Olá Olhos Pretos.
Agradeço a visita,e gosto bastante deste texto sofrido,mas verdadeiro para muitos,que bem lá no fundo a alma sangra,sem nada dizer e sofre muito.
Beijinho e voltarei
Agulheta

Bandys disse...

Parabéns!!
Linda! Linda mas triste. A "ovelha negra", me pareceu na verdade um lindo anjinho do amor.
Felicidade é dividir sonhos é repartir fantasias. Agradeço de coração sua visita. Estou te lincando.Ja sou leitora certa aqui...
Durante a nossa vida:
Conhecemos pessoas que vem e que ficam, outras que, vem e passam.
Existem aquelas que,vem, ficam e depois de algum tempo se vão.
Mas existem aquelas que vem e se vão com uma enorme vontade de ficar...
Beijos no ♥

RICARDO ARIAS disse...

Venho de atopar este blog. Gustei do texto. Esa historia da garotinha que non foi quén de ser ela mesma.

Rui Caetano disse...

Um texto muito bem escrito e intensamente bonito

Um Poema disse...

....

Gosto de ler-te.

Um abraço

...

Arrebenta disse...

Sobre o que está a acontecer no “As Vicentinas de Braganza”, agradecia que nos visitassem, e se pronunciassem, caso vos interesse o nosso novo dilema/problema

http://asvicentinasdebraganza.blogspot.com/2008/04/nota-constitucional.html#links

Adri /Dri /Drika disse...

Parabéns pela sua sensibilidade e pelo texto... Bju

Capitão Merda disse...

Olá!
Segui o teu rasto desde a minha naviarra...
Voltarei para ler-te com a devida a atenção.

redonda disse...

Gostei.
Obrigada por me ter vindo visitar e assim possibilitar-me descobrir o seu blog

Maria Clarinda disse...

Sem palavras!!!!Apenas um beijo no coração pela profundidade e beleza do post.

Mary West disse...

Quanta força em seu texto, muito bom mesmo, bem retratado um sofrimento quase que impossivel de evitar.

Voltarei mais vezes.

poetaeusou . . . disse...

*
realidade . . . !!!
,
conchinhas reais,
,
*

O Sibarita disse...

Oi dona moça dos olhos pretos! E são? Ah... bom! kkkkk

Seu texto é magnífico, ai está a vida como ela nas camadas mais pobres... E com certeza o presente para eles será sempre o passado. A sofrência endurece o coração, é isso...

Sua menina, OBRIGADO pelas palavras no Sibarita, realmente, você demonstrou ali todo carinho e bondade que tem pelo seu semelhante.

Minha querida, sem nenhuma pretensão de querer aparecer, longe de mim isso, mesmo porque sou uma pessoa muito simples que carrega a humildade como ponto de vida, de vivência, de amor e bondade, você merece saber, coisa que jamais digo, um pouquinho mais sobre mim. Para ver que quando queremos, apesar dos pesares, conseguimos ser exemplo para os seus e sua comunidade.

Peço desculpas por ocupar espaço tão nobre e aconchegante para me apresentar um pouco mais.

Perdoe-me, por falar da minha infância e juventude! Nascido e criado na maré (palafitas) de Salvador um lugar em que as casas são de tábuas carcomidas sobre a maré e amontoados de lixos, sem postos de saúde, escolas, saneamento básicos e outras coisas que dignifiquem o ser humano, vivendo de mariscar, com pais semi-analfabetos, eu poderia ser agora um marginal, mas, não!

Eu não queria isso para mim, nem para os meus irmãos (somos seis), sendo eu o mais velho. Então, contra todos os prognósticos, estudei sempre em escolas públicas, fiz vestibular na UFBA (Universidade Federal da Bahia) e passei num curso mais concorrido até do que o de Medicina, o de Engenharia Elétrica, formei-me aos 27 um pouco tarde é verdade, mas nunca é tarde para se estudar e só Deus sabe o quanto passei, o quanto andei a pé para ir para Escola Politécnica, onde, eu tinha a maioria das minha aulas, não havia dinheiro para o transporte e, olhe que do lugar que eu morava até a Universidade é longe. De ônibus é quase uma hora! Portanto, eu consegui sair da miséria absoluta e ser ao mesmo tempo exemplo, já que na maré jamais alguém até então tinha chegado numa universidade, ou melhor, raros, rarissímos, estudavam e dos que estudavam poucos chegavam ao ensino médio. A partir dai, meus amigos, os pais passaram a perceber que era possível sim virar o jogo e só se conseguiria através dos estudos. Hoje, da maré que melhorou um pouco com aterros de todo lixo de Salvador e com escolas postos de saúde e algum saneamento básico, tem saido muita gente para universidades e faculdades, nesse ponto, me sinto gratificado.

Então, OBRIGADO PELA OPORTUNIDADE de poder compartilhar com você a minha infância e juventude, não sou herói de nada, sou apenas um sobrevivente de um lugar que seus moradors não tinham futuro chamado maré do Jardim Cruzeiro, Salvador/Bahia/Brasil.

Save zóios preto, vc é ouro em pó!

Ele diz: Que cara cheio de guere-guere, né não fia? kkkk


bjs
O Sibarita

O Pinoka disse...

A demonstração de que se ama muitas vezes mesmo quando não se é correspondido.
Beijinhos

Oris disse...

Acho que as avós de "antigamente" tinham um ar mais austero e não eram capazes de exteriorizar os seus sentimentos. Muitas passaram uma vida muito sofrida e foram recalcando os seus sentires...

Gostei de te ler.

Beijitos

Chuvinha disse...

A vida de um modo geral brutaliza as pessoas. Algumas adoçam com o sofrimento,outras apenas endurecem. Não há falta de amor...há falta de receber para dar.

Vampiria disse...

as vezes o passado e a importância que lhe damos fazem deste o nosso pior inimigo...abraço

Bichinho disse...

Beijo fantasma...

Lyra disse...

A minha avó teve a sorte de nunca ter tido razões para ser infeliz mas, com a idade, amargou de tanto se preocupar com pequeninas coisas...

Ela morreu de velhinha com 89, depois de sofrer, durante anos, os horrores de um corpo cansado de funcionar.

A minha avó fazia anos no dia dos meus anos e faria 90 se estivesse viva. Há 20 anos que sempre que eu lhe dava os parabéns e desejava MUITOS mais ela zangava-se e dizia "Credo, não quero mais, estou cansada, já vivo tudo".

Tocante, muito tocante este texto.

Beijinhos e até breve.

;O)

jo ra tone disse...

Minha cara amiga
A pessoa é livre de fazer o que quer, dentro das suas faculdades mentais.
Mas nestes casos, as autoridades sanitárias de cada país tem obrigação de contribuir para o bem-estar de cada cidadão, e na falta dessa ajuda as pessoas mais próximas, dando conta do seu estado devem ajudar dentro das suas possibilidades
Uma netinha com um bom coração
Beijo

Carol_Roxy disse...

Lindo, profundo e lindo .
Adoreii :D

Chama Violeta disse...

Não vou comentar, estou ainda a sentir!
Deixo-te beijos iluminados!
Fica na paz e no amor!

Bruxinhachellot disse...

quando perdemos nosso "Eu", perdemos também nosso chão e aí passamos a vida tropeçando nos nossos próprios passos.
Um texto que grita dentro de nossa alma.

Beijos de Sol e de Lua.

Pedro M disse...

Recordo duas avós, uma extremamente carinhosa, a outra extremamente severa.

Um beijo