segunda-feira, 12 de maio de 2008

VINHO DOCE E QUENTE

Tratava-se de uma luta entre a racionalidade e o sentimentalismo. Ele só queria uma transa. Ela queria um pouco de amor. E por mais que tivesse prometido não aprofundar-se na relação, ela acabara entrando no motel, e desfazendo tudo o que planejara com fervor.

Havia sido jogada naquela cama redonda como um objeto. Sim, ali ela era um objeto. Mas não se importava. Tentava mentalizar que seu único objetivo era usá-lo, da mesma forma que ele fazia. Por que ela não poderia ser racional também? Não havia nada que pudesse proibir isso.


Havia sim, havia muita coisa escondida atrás daquela porta pintada de verde esmeralda. Relações perdidas, pessoas iludidas, sexo por dinheiro, traições, satisfação, gozo, prazer e... amor. Não... amor não poderia, de jeito nenhum. Não com ele. Uma pessoa racional não sente amor.

Enquanto seus corpos eram despidos, ela relutava a se entregar. Por que não estavam em um barzinho, ao som mpb, brindando momentos com vinho doce e conversando sobre besteiras? Em que momento ela permitiu estar ali, trancada com ele, sem poder fugir, sem poder controlar seu coração?

Enquanto ele beijava, tocava e cheirava cada parte do seu corpo, ela olhava a decoração do quarto. Uma imagem egípcia de mulher, um sofá aconchegante, espelhos que faziam circular qualquer imagem, quadros de paisagens, tudo muito bem decorado. Pelo menos, se era pra desfazer de sua promessa, que custasse bem caro pra ele- pensava consigo.

Muito rapidamente, ambos já estavam nus. Ele, usava de seu peso para impor-lhe seu desejo. Com a força que lhe restara, tentava adiar a concretização do ato ao máximo. Já faziam três meses que estava só, e sua pressa a assustava. Um toque delicado, um pouco de carícias seria mais agradável ali, e talvez tirasse um pouco o peso da consciência que berrava "não pode", "com ele não"... Mas, a mesma violência que arrancou-lhe o soutien foi percebida ao penetrar no seu corpo. Um grito de dor, e ela entendia que não eram mais carinhos e preliminares que importava. Seu corpo já estava sendo violado.

Olhava fixamente cada detalhe do seu rosto, enquanto ele entrava e saía de sua intimidade. Não possuía nenhuma beleza que chamasse a atenção. Talvez um nariz fino ou uns dentes incrivelmente brancos. E só. Aquele rapaz somente a conquistara pelo charme e pela voz sedutora, que outrora sussurrava no seu ouvido, fazendo com que seus olhos abrissem e fechassem. Aqueles sussurros eram tentadores, e se não fosse a agonia dele, poderia estimulá-la ainda mais.

Eles já haviam transado outra vez. Mas... Talvez agora, ele quizesse mostrar algo que faltou na primeira, quando seu desempenho não foi um dos melhores. Mesmo sem preliminares, ele se esforçava.

E ela gemia a cada violação. Gemia de prazer, de dor, de agonia, de desejo, de arrependimento, de alívio, de tesão, de alegria... Estava tendo-o por inteiro, dentro dela, e podia contentar-se somente com aquilo. Mas e a carência, onde ficaria?

Seu prazer explodiu, aliviando a tensão do seu rosto e fazendo com que fechasse os olhos. Ela, ao contrário, nada sentiu. E já sabia que não seria diferente. A noite era dele, e ele deveria ser premiado- pensava tristemente.

Enquanto ele descansava, ela olhava para o teto e pensava no mundo. Tinha medo do amanhã, da vontade invadir de surpresa os seus pensamentos. Não se permitia brincar com sexo. Ela acreditava que sexo era vício e, se um dos dois estivesse emocionalmente sozinho, poderia se apaixonar depois. Mas ele não. Ele era a razão da história. Havia trazido-a para um só objetivo, sem cobranças, sem compromisso, sem esperanças no final. Ela não precisava esperar por algum sentimento. Voltou seu olhar e ele a admirava, observando as curvas de seu corpo jovem.

Ela era uma mulher de verdade. Uma daquelas que não se apegava mais a príncipes encantados e finais felizes. Ela poderia doar seu corpo a hora que quizesse, pra quem quizesse, e gozar da liberdade a qual tinha pleno conhecimento. E isso ele sabia e nutria por ela uma admiração não encontrada em outras. E ser desejada era muito melhor do que ser pedida em casamento. Nada substitui o olhar do homem que deseja, que quer, que arde em suplício pelo toque. Mesmo que isso só dure o espaço de tempo até sua satisfação.

Seu coração doía ao vê-lo catar suas roupas. Já havia passado o prazo e a moça da recepção telefonara avisando. O tempo passara relativamente mais rápido. Depois da transa rapidamente concebida, ele encheu-a de perguntas sobre sua vida. Ela desviava o olhar, meio sem entender o por quê de tanto interesse. Não adiantaria nada falar sobre seu perfume de madeira, sobre seus antigos namorados, sobre como é bom ver o pôr-do-sol ou sobre estar desempregada em um mundo capitalista. Na verdade, ela não via intimidade suficiente para ele perguntar tais coisas, e achava falso o interrogatório.

Aos poucos, cada detalhe era retirado dali, como a não deixar provas. A pior parte de transar com alguém por satisfação carnal é na separação, quando percebe-se olhares longes, pensativos. Não há beijos e nem a consideração de uma despedida marcante. Tudo totalmente artificial. Tudo totalmente vazio.

Na saída, enquanto arrumava seu longo cabelo preto que teimava em cair nos seus olhos, e ajeitava o que sobrou do feiche do soutien, ele a surprendeu puxando seu braço e perguntando por quê ela era tão racional assim.

E, de repente, ficou ainda maior a distância entre os dois.

33 comentários:

Maria Laura disse...

Ninguém é como os outros o vêm. Jogos de desejo podem transformar-se em perigosas desilusões.

Capitão Merda disse...

Com essa pressa todo, o sujeito só pode ser um nabo!
Beijinhos

Joana Dalila Santos disse...

Adorei! E parece-me muito sincero e real*

Dama de Cinzas disse...

"Tratava-se de uma luta entre a racionalidade e o sentimentalismo. Ele só queria uma transa. Ela queria um pouco de amor"

Essa é a grande questão entre homens e mulheres... rs

Parabéns! Lindo, lindo seu texto, muito bem escrito! Alimenta a alma ler quem sabe escrever!

Beijos

Pedro M disse...

Sabes, às vezes os homens procuram exactamente o mesmo que as mulheres... apenas não sabemos como o exprimir, mas parece que não somos os únicos...

Um beijo

Perla disse...

Juro que fiquei sem saber como comentar...
Como é que se comenta quando alguém vende o seu corpo, seja a troco do que for?!
Eu acho que a mulher deve saber demarcar-se e não se deixar tratar como objecto.

Beijo

Carla disse...

como é que uma vontade mal decidida pode levar a uma quase violação?
como é que duas pessoas podem estar num mesmo espaço, viver uma mesma emoção, mas com sentimentos tão distintos!
caiu-me uma lágrima com a leitura deste teu belo texto
beijos

Lyra disse...

Hoje estou muito bem disposta, por isso quero apenas partilhar esta emoção deixando aqui um grande beijinho. Quero desejar-te uma excelente semana e agradecer as palavras e amizade que tens depositado no meu...caos.

Até breve!

;O)

Noslen ed azuos disse...

Que testo revelador, deu-me vontade de pedir desculpas ou quem sabe voltar o tempo e depois da transa cobrir de beijos as mulheres sem querer nada em troca. Voltando ao texto, a forma como colocas alguns momentos é racional e poético ao mesmo tempo.

Homens quanta culpa por ser educados pra ser homens...na verdade todos frágeis, tristemente frágeis.

Bjs
NS

NANDO DAMÁZIO disse...

Orgulho e amor próprio feridos ..
Para muitas uma forma de sobrevivência, né ..

Gostei do texto, denso e suave na medida certa ..
Um abraço !!

Bianca Rieth disse...

Que texto tocante, o amor e o desejo juntos. Unindo forças, sentimentos, querendo liberta-se, mas a ocasião não permite, suas vidas não permitem.

“Tratava-se de uma luta entre a racionalidade e o sentimentalismo. Ele só queria uma transa. Ela queria um pouco de amor. E por mais que tivesse prometido não aprofundar-se na relação, ela acabara entrando no motel, e desfazendo tudo o que planejara com fervor.”

Tu começaste o texto divinamente, o resto vai se desenrolando de uma forma magnífica. Parabéns pela qualidade.

Agulheta disse...

Olá amiga.
Sempre vejo os homems,sem grande sensibilidade e racionalidade,do que realmente é o ser mulher! pois eles vêm o objecto elas vê amor,essa é a diferença.
Grande beijinho Lisa

Angel of Light disse...

Querida, não é meu hábito, mas tenho lá no blog um desafio que gostava que alinhasses. Não é nada do género de falar sobre si, escrever uma frase com 6 palavras, nomear blogs... Nada disso! É só mesmo a tua opinião. Se puderes, e quiseres, aceita.

E estendo este convite a todos os que lerem esta mensagem.

Beijinhos de Amor, Paz e Luz!

jo ra tone disse...

Amor
deve ser muito mais do que isto.Isto é o que fazem.
Trama-se uns aos outros.
Contudo um grande texto.
Abracinho

O Árabe disse...

Nenhuma distância pode ser tão grande como a do pós-orgasmo, a separar duas pessoas que não se amam. Cruelmente verdadeiro, e muito bem escrito!

Divinius disse...

Grande post o teu.
Bjs:)

Adri /Dri /Drika disse...

Misturas de sentimentos e desejos, um tudo... muito bom

Maria Clarinda disse...

Gostei muito deste teu texto, levando a pensamentos mais profundos, levando � leitura das entrelinhas...
Parab�ns por ele.
Jinhos mil

Katrina disse...

É,nesses casos devemos sempre ser irracionais

João Videira Santos disse...

Agradeço a visita. Vou voltar e ler com atenção as palavras que nos dás.

Bandys disse...

Voce escreve maravilhosamente bem.
Mistuta de sentimentos...

Minha querida amiga, todos os dias encontramso anjos...as vezes passam despercebidos.

Um grande beijo no seu coração e uma paz.

Bill disse...

Belas reflexões, Olhos Pretos!!
Ponto por ponto!
E obrigado por suas visitas sempre carinhosas lá na redação!!!
Bjoooooooooooosssssssss!!!!!!!

jasmimdomeuquintal disse...

Já foste ao clube de vídeo?
bom filme!

NANDO DAMÁZIO disse...

Oie !!
Que bom que aderiu à nossa coletiva ..
Então é isso, bem simples ..
No dia 31 é só publicar um post sobre o tabagismo .. Pronto !! hehehe

Já adicionei seu blog à lista ..
Brigadão !!

ABEL MARQUES disse...

Abraço

um Ar de disse...

Encara isso como uma experiência que não correu bem.
Sobretudo, acho que não deves sentir "culpa".

Não foi uma questão de racionalidade, parece-me.

Foi mais aquilo que dizes, carência.

E a pobre criatura, que te acompanhou, talvez não se tenha sentido muito melhor... Mas, não é dele que falamos, nem é com ele que temos que nos preocupar - és tu que escreves e que nos contas.

Acontece. Aconteceu.
É melhor pensar que passou... e que, assim, não vale a pena repetir, não é?

Compreendo-te...

[Beijo grande]

Dias disse...

E a minha distancia para as peronagens é tanta que este texto me irritou.

Não pelos teus verbos, e certamente nunca pelos teus conteudos ("Ele, usava de seu peso para impor-lhe seu desejo" fantastico) mas sim pela actitude de ambas as personagens.

Gosto bastante de várias destas pinceladas eroticas, porque as conseguiste dizer de formas que eu não conhecia, parabéns, mas desatino bastante com os espiritos de quem transa.

Beijo

São disse...

MInha querida, infelizmente, a distância está sempre presente nas relações humanas.
Há momentos perfeitos de comunhão, sim...mas são só momentos.
Abraço-te.

Anônimo disse...

realmente amiga, uma mistura de tudo.
paix�o, sentimento entrega, e decp�es.
N�o queri aestar na pele dessa sua
personagem
Noas escritores as vezes temos que entrar nos nossos personagens e essa amiga, vc falou fundo.
belo texto, parab�ns.
te aguardo no meu blog.
bom fim de semana par t� amiga.
beijos.

Regina Coeli

deusaodoya.

Anônimo disse...

um lindo texto, com muito amor , e desejos juntos.
muito belo.
parabéns amiga.
bom fim de semana com muito amor e paz em seu coração.
beijos minha nova amiga. te aguardo em meu blog.

Regina Coelipzmmxtl

deusaodoya.

Nadja Reis disse...

Obrigada pela visita ao meu blog! =)

Um Momento disse...

Estou ainda a imaginar a moça a ser beijada e simplesmente a olhar a decoração do quarto...
Como deve ser doloroso esta "violação" de sentires mutuos.
No final penso eu que nenhum dos dois fica bem...apenas o poder e a submissão se ficam a sorrir...
Adorei a forma como descreves-te cada momento... como fizes-te esta narração
Parabéns!

(*)

Mary West disse...

Minha noss! Q texto INCRIVEL! Simplesmente detalhista e emocionante, nao deve ter tido uma única garota q leu e naum se emocionou, naum entrou na pele da personagem. As coisas andam meio assim mesmo hj em dia, uma pena e ao mesmo tempo um bolo recheado de perigo.