sábado, 26 de abril de 2008

RETROCESSO (cont...)

Naquele Centro, haviam mais coisas a se pensar. A influência do passado nas pessoas que estavam ali, por exemplo. Mas, quão consciente esse passado seria pra elas? Em um momento de descanso e introspecção, aproveitando a entrada de sua irmã e mãe na sala escondida, ela ajeitou-se na cadeira, fechou os olhos e deixou-se levar pela música e pela calma que brotavam daquele ambiente.

Estava tudo escuro demais para que eles pudessem desistir ali. Agora, teriam que ir até o final, seguindo a textura macia da areia, a entrar no chinelo dos dois. De mãos dadas, provando que existia confiança, eles caminharam até o fundo da praia, iluminada apenas pelas estrelas cintilantes. Ela, no auge dos seus 17 anos, nunca havia passado por aquilo e sentia-se ofegante ao descobrir um mundo novo, deserto, onde somente o amor a levaria. Ele, marcante presença, a guiava, convicto do que estava a fazer. Como seus olhos nada podiam ver, seguia-se apenas pelo tato e pelo barulho das ondas, a visitar a areia.

Até ali, nunca sentiu-se tão engajada em uma aventura. Sabia dos riscos a enfrentar na noite, em uma praia deserta e tão escura. Ouvira, em raros momentos, gemidos, de algo que ela não poderia decifrar se era animal ou ser humano. Encontraram pedras e pedras. E subiram-nas até a parte mais alta e segura. As ondas que batiam nas rochas, respingavam nos dois, que riam, contentes por terem concretizado tamanha aventura.

Não dava pra enxergar o mar, bem como os olhos esverdeados e alegres dele, mas dava pra sentir sua mão apertando-lhe em um abraço carinhoso. Ela sentia-se protegida, quer onde estivesse. E, com dificuldade, os dois sentaram-se, ela no seu colo, em uma das pontas mais altas da rocha. O tempo que permanaceram ali seria incontável. A meditação se fez, e os dois entendiam o motivo do silêncio e do som do vento, misturados sequencialmente. Paz.

Ela estava com uma dor fina na cabeça, que deduzia ser do medo passado ao caminhar. Só não entendia porque não melhorava, já que o destino final havia acalmado os dois. Mas, ao olhar para o lado, sua visão pareceu enganar-se. Vira, com uma nitidez cega de quem não entende, uma luz forte, delineando os contornos do que seria um rapaz, a menos de dois metros. Piscava as pálpebras sem parar, na tentativa de estar vendo somente um vulto, ou reflexo do inconsciente. Essa luz, aos poucos clareava, mostrando a figura, surgida não sabia de onde, que ali estava, em frente aos dois. O contorno detalhava o que seriam cabelos compridos e esvoaçantes, e enfatizava bem a posição com que ele sentara- de pernas abertas, mãos cruzadas, olhando em sua direção. Certificando-se que somente ela via, e que não era algo passageiro ou miragem de sua cabeça, ela balbuciou algumas palavras para seu namorado, que pôs-se a tremer, assustado, olhando de um lado pra outro. E, os dois não conseguiram levantar-se por um bom tempo, mesmo que lutassem com todas as forças para aquilo acontecer. Havia algo que os travava, endurecia, imobilizava... Sem respostas do corpo, puseram-se a orar. Em lágrimas, não teriam mais o que fazer.

Aquele dia nunca mais foi comentado pelos dois, por ordem dela, que não entendia o que havia visto. Antes de dormir, vinham flashes daquela noite, ela nunca conseguiu entender como saíra das rochas, da praia, já que isso sua mente não havia registrado.

Todavia, tinha a certeza de que ele permanecia. Aquele rapaz a seguia, mesmo que ela, assustada, permanecesse a vê-lo em silêncio.

terça-feira, 22 de abril de 2008

RETROCESSO

Entrara naquela casa com tijolos azuis e brancos, acompanhando vários outras pessoas que ali procuravam orientação. O ambiente era simples e limpo. Mas, o atendimento diferenciava-se da sua outra casa de meditação pelas hierarquias. Nada inferior, apenas diferente. Ansiosa, procurava quem poderia encaminhar-lhes para a sala de cura espiritual. Mãe e irmã a acompanhavam atentas.

Tinha medo da dor de cabeça atacar. Sempre quando frequentava lugares oscilantes de energia, uma dor fina invadia um pouco acima dos seus olhos, e permanecia ali durante boa parte do tempo. Não havia lanchado nada nas horas antecedentes, e meteu-se em um discursão sem fundamento, por pura teimosia- o que, por costume, agravaria a dor. Mas, na cabeça, nenhum sinal.

Estava ali por sua irmã. Sua querida irmã. Sua mãe descobrira aquele Centro Espiritual há duas semanas e, desde então, procuravam a todo custo conseguir visitar. A mãe delas não era praticante de nenhuma religião. Pelo contrário, não se sabia nem se havia uma crença de Deus em seu coração. Nunca ouvira agradecê-Lo por nenhuma conquista, ou orar pra que as coisas dessem certo. Se o fazia, permanecia silenciosa. Mas ela tinha fé, isso tinha. Ela acreditava que, se abrisse seu coração, fosse lá pra quem for, as coisas mudariam.

Pois bem. Ali estavam as três, sentadas, esperando a vez chegar. A irmã estava serena, tranquila, e nem se ouvia a voz dela. A mãe e ela estariam mais nervosas. Ela olhava ao redor as pessoas que chegavam na sala. Como todos permaneciam em silêncio, qualquer ruído era motivo de análise. Todos mantinham-se de olhos fechados, orando, meditando, ou simplesmente acalmando-se na sua intimidade. Ela, não. Seus olhos teriam que aproveitar mais daquilo. Analisava, interiormente, os rostos sofridos de um por um. Alguns estariam ali apenas para uma visita, outros estariam mais necessitados de uma orientação. Mas, todos, pediam duas coisas: ou pra morrer tranquilamente, ou pra viver tranquilamente. Não havia outro motivo pra ter fé. Deus, na sua infinita bondade, compreende que só a minoria agradece todos os dias por detalhezinhos da sua vida, quando acorda e quando vai dormir.

Haviam muitas pessoas chegando, devagar. A sala foi ficando ruidosa, e não tinha mais ninguém de olhos fechados. Imaginava o motivo de cada um, a procurar uma ajuda espiritual. Doença? Paz na família? Calma pro coração? Não importava o motivo, mas sim a doação. Quanto mais concentração, mais calmo ficaria o ser, quer acreditasse ou não naquilo tudo.

Um bom motivo elas teriam pra estar ali. Há muito, a irmã sofria com um problema nos rins. Eliminava, em excesso, proteínas pela urina e isso teria se agravado. Necessário, seria, uma biópsia pra revelar o motivo exato do problema.

Mas, como o destino existe pra provar que não temos todas as respostas do mundo, ela sabia que estava ali pra resgatar o fator mais importante do seu passado. E que, ao entrar, muitas coisas poderiam ser vistas e revistas.

(Cont...)

sábado, 19 de abril de 2008

OLHAR SEM VIDA

Havia espantado a todos, com seu jeito rude e grosso. Só permaneciam ao seu lado aqueles que a amavam incondicionalmente.

Mãe de sete filhos, dois deles mortos, avó de 10 netinhos e bizavó de 3. Essa é a mulher que comandou a geração da família mais desunida que se conhecia. Não por culpa dela, óbvio. Talvez, por culpa de uma criação e educação rígida e severa.

Essa mulher tão forte completava 85 anos e, entre grosserias e mau humor, via-se apenas um senhora necessitada de carinho, de atenção. Uma atenção dispensada por alguns de seus filhos, os quais não mereciam sair dela. Mas, de quem é a culpa?

Ouvia-se relatos diversos dessa senhora. Certamente, ela não era igual às vovozinhas de conto de fadas - meigas, adoráveis e com paciência pra contar histórias. Estórias ela até tinha, mas paciência... Quando estava de bom humor, narrava sua vida, dramatizando-se vítima na maioria dos casos. Contara que, no passado, sua mãe morreu de câncer, e seu pai suicidou-se logo após obrigá-la a casar. Não se sabe se havia amor verdadeiro entre ela e o marido. Tempos depois, ele a largava por outra mulher.

Daí, parte a indecisão do que, de fato, transformou seu gênio. Sempre fora filha única e, como tal, sustentava um egoísmo e melancolia proveniente da solidão. Batalhou, passou fome, para cuidar de seus filhos. Mesmo dependendo dos outros, nunca aceitava ter amigos. Não os tinha.

Com o tempo, vieram os efeitos resultantes de seus inumeráveis remédios. Ela camuflava a hipocondria, mas não enganava. A olhos mais atentos, via-se nela o desestímulo de viver. Qualquer gesto de carinho era podado como uma planta ruim, sem dó nem piedade. Repetia, a quem ousasse se aproximar, que tinha raiva da vida que trouxera tantos desgostos pra ela.

Todavia, desse lago fundo, havia uma garotinha que tentava, a todo custo, fazê-la respirar. Essa garotinha, que fora nomeada por ela de "ovelha negra" por falar as coisas que ninguém mais dizia, era a única que conseguia, a muito custo, saber de suas aventuras do passado. Essa garotinha, que sentava ao seu lado pacientemente, era a mesma garotinha que fora surrada muitas vezes por ela, que ouvia não ser neta e não ter parentesco com ela, por tão somente tentar impedir a ingestão sem indicação de remédios fortes. Essa garotinha não era santa, porém conseguia entender como aquela senhora havia sofrido. Como era difícil envelhecer doente, sem amigos, sem filhos, sem alguém que pudesse lhe estender a mão em um gesto de carinho. Aquela garotinha sentia falta de ter uma vovó amigável, que fizesse bolo de chocolate para seus colegas, que sorrisse na foto de seu aniversário, que passasse a mão na sua cabeça quando sentisse falta de sua mãe. Sabia que as coisas seriam melhores se a avó fosse uma pessoa melhor.

Por que ela não tentava ser diferente? Por que entregava-se, a cada dia, ao seu fúnebre e ocasionado isolamento? Por que fechava-se no passado, se havia uma chance de melhorar o presente? Por que escolher o sofrimento como único passatempo da vida?

Mas, muito tarde para mudar. Ela havia rasgado todas as fotos que a levassem de volta ao seu eu. E o que restava eram apenas inexpressividades de existência, rugas que acentuavam-se no seu olhar de tristeza e suas lembranças amargas e rancorosas. Mesmo fazendo todos sofrerem, a senhora acreditava que assim, morreria melhor.

E a garotinha chorava. Temia que os olhos de sua avó só se abrissem pra seu amor quando não pudesse mais abraçá-la.

(em prantos...)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O Monge e o Peixe



Ajudará a ouvir o vídeo se der "pause" no arquivo de som, do lado direito.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

SENSIBILIDADE QUE DÓI

Observara tudo, na sua quietude sábia daquele momento. Enquanto esperava o ônibus na estação, concentrava-se nos andares, nos ritmos, na maneira como pessoas iam e vinham, esbarrando-se umas nas outras. Mas algo chamara sua atenção. Um ponto fixo, alguém que poderia ensinar-te mais do que qualquer outra coisa.

Aquele ser humano, que mais parecia um amontoada de trapos e pedaços de madeira, não se importava com os olhares de desprezo e nojo diante do que fazia. Para ele, nenhuma censura seria eficaz para tirá-lo dali, daquela situação que ninguém, nunca, deveria se encontrar. Não aparentava ter distúrbios mentais, tampouco estar fora da realidade que vivia. Ele sabia, exatamente, que era um marginalizado da sociedade, não porque quizesse, mas por não haver escolhas. Com o tempo, essa definição grudara nele como seus panos velhos, e ele desistira de falar que, em meio a multidão, ali estava, a pedir socorro.

Sua aparência assustava. Um negro alto, meio curvado, sujo, vestido de farrapos pretos. Colecionava muitos panos sobre si, um embaixo do outro, e na sua mão carregava uma sacola rasgada. Caminhava com dificuldade, devido a uma luxação em um das pernas. Olhando, via-se nitidamente a forma arcada no lugar ferido. Talvez já nascera assim. Talvez tenha adquirido em um acidente, atropelo... Certamente doía, pela expressão facial do homem, ao caminhar.

Aquilo era o retrato de tudo o que poderia machucar o coração. Mas não o de qualquer um. Muitos haviam tanto o que se preocupar, que acabavam por nem enxergar aquele indivíduo, na sua pressa. Seus olhares não estavam prontos pra enxergar um outro lado.

Aquele pobre homem certamente não era feliz. Mas, se conformava.

Acompanhara seus movimentos, tentando entender como existiam tantas diferenças no mundo. Em cada passo, um exemplo de vida. Em cada olhar triste e receioso, uma dor a bater na alma.

Entrou em um dos botecos que servira comida. Certamente pedira sobras, o que lhe foi negado pelo vendedor. Com um olhar comprido, ele observava os pratos de alguns clientes que terminavam de almoçar. Ele se contentaria com aquela carne deixada pela moça, ou aquele feijão duro que o homem se queixava, ou até mesmo com metade do prato de comida que a criança teimava em jogar fora. Na condição dele, os restos não faziam diferença.

Foi enxotado como cachorro pra fora. Aos empurrões, desequilibrava-se nas pernas. E os ônibus freiavam, na pista, receiosos da sua passagem. Ele não xingava. Ele não exibia nenhuma reação àquilo tudo. Pacificamente, seguia seu rumo, a caminho de uma lixeira mais próxima, onde cataria seu macarrão e o comeria sem ninguém incomodar.

O ônibus chegara, mas um último olhar se deu para aquele homem que, mesmo sem perceber, trazia aos olhos a incompreensão e as injustiças da humanidade. Humanidade?

Ali, aprendera a enxergar o poema de Manoel Bandeira...

"Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem."

sábado, 12 de abril de 2008

MENINO DE OLHOS VERDES (Cont...)

O noivado dele fora a forma mais difícil de distância. Quem é tão importante em nossas vidas não merece ser arrancado de nós, por outro, ou outra. Ela se conformara. Com o tempo, tudo ajeitara-se da maneira mais tranquila para os dois. Havia se mudado de onde sua janela avistara a dele, e não mais conservara aquele mensageiro de vento com doze corações pendurados, que ele dera quando eles fizeram um ano de namoro. O objeto caíra de sua mão, em uma das suas arrumações do quarto. Ela quis limpá-lo, fazê-lo brilhar novamente, mas ele se transformou em pedacinhos de cristais, que não serviam pra mais nada.

Lendo seu -email, ela engolia seco na pergunta que ele fizera. Qual seria a última notícia que havia dele? E seus olhos lacrimejavam a procura do que responder. Nas suas lembranças, ficara terrivelmente abalada quando soubera do seu derrame cerebral. Era a última, e talvez a mais dolorida notícia que tivera dele.

O menino de olhos verdes era aquela imagem de vida, de luta, de perseverança. Mas, também tinha muita vaidade e orgulho. Vaidade essa que provocara o ciúme dela e, por conseguinte, as brigas. Ele sabia de sua beleza. Sabia que ela tinha bom gosto com homens. Não o escolhera por acaso. Seus imensos olhos verdes brilhantes era o que atraía e seduzia as mulheres.

Mas, agora, não entendia como ele lidava com a paralisia de alguns de seus membros. E não sabia a melhor forma de contar-lhe que sabia disso. Nada escreveu. Lia e relia seu pequeno texto, imaginando como seria difícil vê-lo nessas circuntâncias. Como já haviam dois e-mails recebidos, sem nenhum deles falar do que aconteceu, ela pressupunha que ele estivesse receioso de contar.

É sempre trágico lidar com o novo. Principalmente, para um jovem cheio de vida, perceber que ali finalizara seu sonho. E como sonhara em ser dentista! Uma das poucas coisas que o fazia chorar era esse desejo. Havia feito biologia, mas desistira pra seguir Odontologia. No seu quarto haviam materiais cirurgicos recém-comprados pras aulas, caneca em formato de dente, duas ou três arcadas dentárias e o jaleco branco, que ele fazia questão de vestir cada vez que ia a escola apanhá-la. Passava horas explicando a diferença de cada dente, colocando-a de boca aberta em seu colo. O que ele estaria fazendo agora? Havia alguma possibilidade de voltar a trabalhar como dentista, sem seu lado direito ter movimentos? E a sua noiva, assumira o acontecido da forma mais digna e justa?

Notícias que os dois brigavam não era mais novidade. Sua mãe vinha contar-lhe toda empolgada, achando que ajudaria na volta dele pra ela. Mas, ela não queria se meter. Não achava justo passar por cima da decisão tomada pelos dois, por um amor, agora platônico. Porém, não via com bons olhos as brigas dos noivos, frequentemente escutada da janela até ela se mudar. Eram gritos, palavrões que ele soltara, ao telefone, xingando e desmoralizando sua noiva. Deveria ser algo muito sério pra ele se alterar dessa forma. De certo, o menino de olhos verdes nunca fora calmo. Ele gostava de dramatizar, sim, principalmente pra chamar sua atenção e ganhar o que queria. Mas nunca, nos quase dois anos de namoro, ele a desrespeitou como fazia, agora, com a noiva. Talvez, essa relação que mativera agora o tivesse prejudicado. Ou talvez, fosse apenas o destino.

A última visão que tivera dele foi em uma noite, no trânsito engarrafado. Ela voltava pra casa da faculdade. Nesse dia, por mais curioso que fosse, havia pensando nele intensamente. Ela ainda imaginava como estava sendo difícil pra ele aceitar toda a nova readaptação de vida. Mas, na hora que o viu, seus pensamentos estava soltos, o que a fez pular pra cima do volante. Era ele, seu príncipe, passando na frente de seu carro, na frente de seus olhos, na frente de sua vida. Apressadamente, tentando ser o mais ligeiro que conseguia, atravessou de um lado pro outro. Via-se nitidamente que sua perna e seu braço estavam lentos, e que ele caminhara com dificuldade, mas pra ela nada disso importava. Sensações paradoxas, a vontade de buzinar, a alegria de vê-lo, o coração palpitante e... freiando todos os impulsos...o entendimento que aquilo não era o certo a se fazer. Ela não queria um reencontro dessa forma. E imaginava que ele também não. Ela sabia que ele poderia constranger-se com tamanha surpresa, criando um clima desagradável entre os dois.

Olhara tantas vezes para o computador nessa tarde. Sua impulsividade a fazia digitar, e apagar, e digitar mensagens tantas. Gostaria que ele soubesse que ela estava bem, então, fazia com que suas palavras fossem as mais perfeitas para aquele momento. Nos seus olhos, um planejamento antecipado e infantil da junção dos dois. E a certeza de que, se esse reencontro um dia acontecer, ela fará com que seja inesquecível. Não por ele, ou por ela. Mas, por uma estória de amor que merece final diferente...

sexta-feira, 11 de abril de 2008

MENINO DE OLHOS VERDES (Cont...)

Eram apenas duas crianças. Ele, cinco anos mais velho do que ela, tinha menos experiências em sexo do que se podia imaginar. Seu toque suave, seu receio de machucar, seu cuidado em preservar a porcelana que ela entregara tão docemente... Tudo era tão novo e tão vergonhoso para os dois...

Ela lembrara daquele quarto escuro, do colchão de solteiro no chão, sendo o único móvel da casa. Ele arranjara aquele lugar para os dois, especialmente. Nada de luxo, nada de beleza. Era apenas o quarto do amor. Lá, onde os pudores vinham à mente dos que ainda se preparavam pra entendê-los. E como era difícil a entrega. Ela, deitava primeiro, conservando as peças íntimas como forma de esconder seus segredos. Ele, por cima, com seu tato e seus pensamentos explodindo na cabeça.
O menino de olhos verdes e falante era ingênuo e delicado. Achava que qualquer movimento além poderia romper e quebrar a porcelana. Isso ela nunca haveria de esquecer. Jamais conheceu outro homem assim. Ela, com a bondade de um anjo, ia ensinando aonde seus dedos poderiam percorrer, e observara sua tez, mudando conforme sensações. Era bom os olhos pretos estarem tão perto dos verdes. Ali, encontravam-se duas almas.


Ele havia dado notícias novamente. Escrevera, por e-mail, que tinha saudades dos tempos juntos. Ele, até onde ela sabia, estava muito diferente do menino que ela nomeou seu príncipe. Estava um pouco mais defensivo, um pouco mais marcado com o tempo. Ela tomara cuidado nas palavras de resposta. Havia algo que ele escondia. Havia algo que, por respeito ela não queria dizer que sabia.


Passava um tempo sem contato. Sua mãe acreditava que ela vivera um amor de verdade com ele e foi difícil fazer com que ela entendesse que não haveria volta, que o namoro estava acabado. Mas, sua mãe ainda acreditava. E percebia em seus olhos o brilho à simples pronúncia do nome do menino de olhos verdes. Sua mãe havia vivido um amor também, bem antes delas nascerem, no qual mantia uma esperança de reconciliação, mesmo passado mais de 27 anos. No fundo, ela elegera o menino de olhos verdes como único capaz de trazer felicidade a sua filha.


Mas o destino, que rege a vida dos amantes e amados, só nele tinha respostas. Só nas mãos dele estavam os caminhos que, com ou sem explicação, tornaria a vida diferente.


Ele noivou com outra. E, desse ato, ela não poderia esperar uma renúncia. Deveria ser forte e marcante pra ser compromissado, o que a fazia entender, duramente, que toda a intensidade do conto de fadas vivido não passou de criação da sua cabeça. E que ele a esquecera de vez.


(Cont...)

quarta-feira, 9 de abril de 2008

MENINO DE OLHOS VERDES

Com os olhos arregalados, dando a impressão de não acreditar no que via, ela confirmou sua suspeita. Era o menino de olhos verdes quem ressurgia na sua vida, marcando sua semana como a mais memóravel e surpreendente de todas.

Mais uma vez ela não acreditava na sua visão. Sem ter como escrever esse reencontro, ela pensava, pensava e as letras não saíam. Ele era algo que não tinha como descrever. Mas ela não achara justo, em meio a tantas experiências, uma das mais importates não ser relatada em seu diário virtual.

Ele sumira da sua vida quando ela tinha 18 anos. Depois de namorar durante quase dois anos, eles se separaram. Não haveria mais dúvidas que sua escolha era a mais certa para os dois. Com tantas brigas, ela deixara de estudar e não se preparara direito pra provas e vestibular. Ele, na faculdade de odontologia, era sempre o "exemplo a ser seguido"- comentava sua mãe ao saber de mais uma briga do casal. Ao contrário da mãe dela, a mãe dele nunca permitiu o namoro. Era contra por saber da diferença de idade entre os dois.

Na sua vida, foram contadas as vezes que viveu intensamente relações. Paquerava muito, mas namorar era bem complicado. Ela era complicada. Havia tido um primeiro amor, aos 13 anos. E, com 14 anos conhecera o sexo, com outro rapaz. Mas foi com o menino de olhos verdes, aos 15 anos, que ela aprendeu a namorar, com todos os atributos que uma relação exige: ciúmes, respeito, carinho...

Estava voltando da escola, dessa vez sem Yam e Yanic, quando avistou, atrás de um orelhão, um menino alto, magro, correr de um lado pro outro, atrás de um telefone que estivesse a funcionar. Ela, que esperava sua amiga deixar os livros em casa, observava com entusiamo como aquele menino era desajeitado e nervoso. Timidamente, tentava olhar sem que ele percebesse. Ela tinha crises da idade, e se achava muito magra, muito feia, muito estranha. Seu corpo mudava a cada dia, e sua cabeça não acompanhava essas evoluções. Despedira-se rapidamente, com seu estômago roncando de fome. O sol, que queimava sua cabeça, também fazia raios de luz na sua vista, e ela seguiu sozinha pra casa. Lembrara que o menino de olhos verdes a seguira nesse dia.

Tudo seria normal se, nos dias seguintes, ela não houvesse passado pelo mesmo lugar, encontrado o mesmo menino e sido acompanhada até em casa.

Ela, agora, podia perceber seus imensos olhos verdes. Eram como duas esmeraldas brilhantes, apontando pra ela. Seu cabelo, loiro e liso, flutuava como pena ao vento, principalmente quando ele, apressadamente, tentava manter o ritmo dela. Não adiantava, ela fugia, ele seguia. Ela tinha medo dos seus olhos. Nele, encontrava-se o mais puro dos lagos de sentimento. Poderia aforgar-se em tanta beleza.

Descobriu, tão somente, que ele tinha facilidade de comunicação, o que ela, precisava aprender. Ele se aproximou e a conquistou, falando, falando e falando... "O que esse menino queria?"-indagava ela, de tantos assuntos que ele puxava.

O menino de olhos verdes era seu vizinho, e a maneira como ela descobriu que sua janela dava pra dele foi algo digno de um filme: Ele, pra chamar sua atenção, subiu no parapeito da janela e, numa atitude de desespero enfiou a mão por cima das grades, que fazia a proteção da sua casa. Ninguém ousaria mais do que isso. Ninguém faria isso.

Logo, estariam a namorar. Ela tinha orgulho daquele menino. Ele era a vida ousada que ela nunca teve. Se quizessem correr, eles correriam. E, gritar, eles gritariam. Fariam os dois, se quizessem. Com ele, ela vivia intensamente. Os dois estavam sempre juntos e ela podia contar com ele pra tudo.

Namoraram seis meses, terminaram, e voltaram a namorar por mais um ano. Ele deu a ela o primeiro ursinho de pelúcia. E realizou seu sonho de pular no Carnaval pela primeira vez. Ela ensinava a ele as delícias das preliminares e, como era amar com respeito. Viu que tinha vocação pra poesias, e adorava quando ele te mostrava as novas tecnologias achadas em seu computador. Aprenderam muito juntos. Mas, brigaram muito também.

Ela ainda não acredita quando lê sua mensagem de volta. Tantos anos se passaram, e sua vida mudou tanto. Hoje estava mudada, estava mais madura, e havia perdido o sonho de se casar com um príncipe. A vida não tirou os possíveis contos de fadas, mas a fez enxergar que ela não era a princesa perfeita.

Mas, aquele que havia sido seu príncipe ali estava, a sua procura...

(cont...)

lUCIDEZ INFANTIL

Como sentira falta de suas amigas...

Suas duas amigas Yam e Yanic eram como duas irmãs. O que faltava em uma, sobrava em outra. Havia, claro, a mais tempestuosa e a mais calminha, a mais extrovertida e a mais quieta. Das três, ela sustentava sempre a liderança. O que falasse, tava decidido. Assim mesmo, ela programava a diversão. Cinema, parque, sorvete. Partia tudo dela.

Na época de escola, lá estavam, as duas, a te importunar nas provas. Ela não conseguira se concentrar até metade do tempo, com as duas lançando o pé na sua cadeira. De certo que haviam combinado de cada uma estudar uma matéria e, nesse dia, ela estava a par de todos os assuntos da matéria (sua especialidade era biologia, português e literatura). Mas, precisavam combinar também o tempo que seriam dadas as respostas, escondidas do professor. Bem não abria a prova, estavam as duas, a pedir o resultado.

Ela sabia que comandava a cola da sala. Por trás de suas duas amigas, estavam dezenas de outras pessoas, a conferir resultados. E o esquema era sempre o mesmo: um vacilo da professora e uma questão repassada.

Lembrava-se de certa vez que, no meio da confusão e dos olhares curiosos, ela soltou uma gargalhada. E permaneceu rindo por todo o restante da prova. A professora, claro, pegou a cadeira de madeira, e sentou-se ao seu lado, pra tentar entender o motivo da graça. Nesse dia, não houve cola pra ninguém. Mas ela se divertiu.

Ela era dois meses mais velha que as duas amigas. Então, se sentia sempre na razão quando havia algo a contestar. Achava que faria advocacia na faculdade, e por isso sempre estava disposta a defender os alunos, e a sua turminha que variava entre cinco a seis pessoas. Havia um carinho que ela, na sua infância, não sabia explicar de onde vinha. Ela se sentia bem com eles. No intervalo, todos sentavam juntos na cantina da escola. Ela pedia a Dona Cátia cachorro-quente duplo, já sabendo que não iria conseguir almoçar quando chegasse em casa. E quem se importava?

O momento mais triste que a turminha dela teve foi na morte do unico irmão de Olec, adotado por ela como o mascote da galerinha. Seria mais um dia normal naquela escola de freiras se não fosse a notícia de que havia um menino morto no campo de futebol. E Olec chorou com ela. E ela, com suas duas amigas, foi ao enterro. Talvez, em um único dia, se fizesse todos os conceitos do que seria uma amizade. Talvez, a partir daquele dia, o olhar de cada um mudasse. E todos compreendessem que aquele sentimento que os unia era o mais importante de tudo.

Ela se sentia feliz... Aquela época marcaria toda a sua vida...

terça-feira, 8 de abril de 2008

MAIS UM...

Saíra na última noite com um quase desconhecido, se não fosse uma estória ligada, aos dois, há uns cinco anos atrás. Ele, mais velho e mais maduro (mas não tão velho assim. Eles tinham a mesma idade). Agora, sem aparelho nos dentes, fazia do seu sorriso a única arma de convencimento. "Engana-se se acha que irá me seduzir"- pensava ela, rindo consigo mesma. Ele era o exemplo do homem totalmente racional. Nas linhas traçadas pelo destino, havia poucas e objetivas palavras pra definí-lo. Ele tentava enrolar, tentava mostra-se sensível, mas tudo o que fazia era passo a passo estudado, para arrastar a moça pra seu intuito final. Ela seria mais uma.
Na cabeça dela, passava-se um filme. Ela gostava de relembrar momentos, já que sua memória estava cada dia mais duvidosa. Em reencontros assim, fazia viagens por outros mundos, outras épocas, e falava em detalhes, cada coisinha que aos poucos reavivava aquela relação, quer ele estivesse escutando, ou só olhando pra sua boca.

Foi um amor de verão, ou melhor, uma paixão de inverno, já que toda história começara nas vésperas de um São João muito estranho. E há quem diga que épocas de frio são as melhores pra se apaixonar. Ela concordava. Mas, concordava também que nada aconteceria tão intensamente se não fosse as confusões ligadas aos dois. Pois tudo o que houve naquele São João se devia ao fato dela ter uma amiga apaixonada pelo melhor amigo dele.

Tudo mudara em questões de dias para os quatro. Ela e sua amiga Yam decidiriam, em nome do coração, passar as férias de meado do ano em Jaguaquara, cidadezinha do interior, fria e distante de qualquer tentativa de fuga da situação. Ela não tinha espírito aventureiro, mas Yam era a própria aventura. Sempre a metia em situações inusitadas e atípicas em prol de "viver a vida loucamente". Decidiram e foram.

Porém, a chegada ao lugar não agradou algumas pessoas. Concorrência era concorrência. E ninguém tiraria da cabeça que ela e sua amiga viriam atrapalhar alguns planos pré-estabelecidos. Ficar em uma casa onde não teria nem cama seria um deles. Daí em diante ela preferia narrar com tons mais românticos, ao invés de contar como foi estressante a viagem. Essa capacidade de diversificar pontos de vista sempre foi seu forte. Todos tem inúmeras visões sobre a vida, e ela escolhia sempre a melhor e a menos dolorosa.

Enfim, em meio a um frio congelante, só quem tinha contato com seu paquera era Yam,que podia, sem ser notada, viver uma incrível história de amor, debaixo de panos e cobertas grossas. E Yam seguia feliz. Ela, não. Estava tudo errado. Tudo fugiu imensamente do seu controle ao achar que ele, a paixão do seu São João, iria tomá-la nos braços e assumir naquela cidadezinha, todo o amor que havia começado. Enganou-se. Ele a ignorou, jogando seus sentimentos pra outra. E quando a procurava, era mais frio do que uma lâmina de aço. Em meio ao licor diversificado, ao forró tocado nos carros que estacionavam em cada esquina, ele criou a distância. Foi daí que ela pôde entender quão racional era ele. Combinava perfeitamente com o frio cortante de Jaguaquara.

Na mesa do restaurante, olhando seu sorriso e sua tentativa de ser carinhoso, ela sabia que, dele, não provinha amor. E nela, talvez, nem mágoa, pelo tempo que passaram separados. Havia uma total insignificância ali, que ela compartilhava falsamente com ele. A promessa de manter um contato, e de voltarem a se falar poderia acontecer. Mas ela sabia que o mal estava feito e que ele nunca poderia consertar aquele erro que marcou a estória.