Naquele Centro, haviam mais coisas a se pensar. A influência do passado nas pessoas que estavam ali, por exemplo. Mas, quão consciente esse passado seria pra elas? Em um momento de descanso e introspecção, aproveitando a entrada de sua irmã e mãe na sala escondida, ela ajeitou-se na cadeira, fechou os olhos e deixou-se levar pela música e pela calma que brotavam daquele ambiente.
Estava tudo escuro demais para que eles pudessem desistir ali. Agora, teriam que ir até o final, seguindo a textura macia da areia, a entrar no chinelo dos dois. De mãos dadas, provando que existia confiança, eles caminharam até o fundo da praia, iluminada apenas pelas estrelas cintilantes. Ela, no auge dos seus 17 anos, nunca havia passado por aquilo e sentia-se ofegante ao descobrir um mundo novo, deserto, onde somente o amor a levaria. Ele, marcante presença, a guiava, convicto do que estava a fazer. Como seus olhos nada podiam ver, seguia-se apenas pelo tato e pelo barulho das ondas, a visitar a areia.
Até ali, nunca sentiu-se tão engajada em uma aventura. Sabia dos riscos a enfrentar na noite, em uma praia deserta e tão escura. Ouvira, em raros momentos, gemidos, de algo que ela não poderia decifrar se era animal ou ser humano. Encontraram pedras e pedras. E subiram-nas até a parte mais alta e segura. As ondas que batiam nas rochas, respingavam nos dois, que riam, contentes por terem concretizado tamanha aventura.
Não dava pra enxergar o mar, bem como os olhos esverdeados e alegres dele, mas dava pra sentir sua mão apertando-lhe em um abraço carinhoso. Ela sentia-se protegida, quer onde estivesse. E, com dificuldade, os dois sentaram-se, ela no seu colo, em uma das pontas mais altas da rocha. O tempo que permanaceram ali seria incontável. A meditação se fez, e os dois entendiam o motivo do silêncio e do som do vento, misturados sequencialmente. Paz.
Ela estava com uma dor fina na cabeça, que deduzia ser do medo passado ao caminhar. Só não entendia porque não melhorava, já que o destino final havia acalmado os dois. Mas, ao olhar para o lado, sua visão pareceu enganar-se. Vira, com uma nitidez cega de quem não entende, uma luz forte, delineando os contornos do que seria um rapaz, a menos de dois metros. Piscava as pálpebras sem parar, na tentativa de estar vendo somente um vulto, ou reflexo do inconsciente. Essa luz, aos poucos clareava, mostrando a figura, surgida não sabia de onde, que ali estava, em frente aos dois. O contorno detalhava o que seriam cabelos compridos e esvoaçantes, e enfatizava bem a posição com que ele sentara- de pernas abertas, mãos cruzadas, olhando em sua direção. Certificando-se que somente ela via, e que não era algo passageiro ou miragem de sua cabeça, ela balbuciou algumas palavras para seu namorado, que pôs-se a tremer, assustado, olhando de um lado pra outro. E, os dois não conseguiram levantar-se por um bom tempo, mesmo que lutassem com todas as forças para aquilo acontecer. Havia algo que os travava, endurecia, imobilizava... Sem respostas do corpo, puseram-se a orar. Em lágrimas, não teriam mais o que fazer.
Aquele dia nunca mais foi comentado pelos dois, por ordem dela, que não entendia o que havia visto. Antes de dormir, vinham flashes daquela noite, ela nunca conseguiu entender como saíra das rochas, da praia, já que isso sua mente não havia registrado.
Todavia, tinha a certeza de que ele permanecia. Aquele rapaz a seguia, mesmo que ela, assustada, permanecesse a vê-lo em silêncio.





