domingo, 6 de abril de 2008

ÚLTIMO OLHAR

Achava humilde o suficiente contemplar as primeiras visitas em seu blog. Eram os primeiros comentários, porém tão significativos quanto o sentimento que ali a fazia crer. Agradeceria pessoalmente, se a sua alma não se escondesse atrás da tela. Mas sabia, tinha consciência, todas as palavras que vinham, tinham, na certeza, a reciprocidade de carinho.

Humana, ela era.

OLHOS SEMI-ABERTOS


Acordara com ressaca de uma briga. E como é triste ter essa ressaca. Mais solidão, mais isolamento nesse dia. Mas ela não desistia de mostrar que estava certa. Os únicos motivos que tiravam-na do sério era a injustiça. Nunca suportava. Uns diziam que era do signo, outros, da personalidade. Ela defendia seu jeito e o que achava certo, mesmo que o resto do mundo fosse contra.

Memórias do que havia feito e falado vinham, a todo tempo, para perturbar sua paz. Era o arrependimento de ter evitado tamanha perda de controle. Justificado, mas não o correto. Ela havia jurado que não mais brigaria, não mais. Nada valeria seu bom estado de espírito. Mas, como virar a cara para o erro? Como ser acusada injustamente?

Mais uma vez ela lembrava-se dele. Por uma briga, eles selaram caminhos diferentes. Por uma discursão insignificante, os dois se separaram. E, as chances de um reencontro não mais existiam. Ela, impulsiva. Ele, injusto. Todavia havia sensibilidade neles. E era o que os unia. Sensibilidade de pensamentos iguais, de jeitos iguais, de objetivos iguais. "Mas, aquariana é signo de ar e peixes signo de água. Não poderia dar certo!"- concluia a amiga das amigas.

E quem a convenceria disso?

sábado, 5 de abril de 2008

DOR

Não, não, não, não...
Ela jurava pra si mesma que seus olhos a traíam. Não podia ser! Não estava ali seu sonho, sua ilusão, o homem a quem ela deu o mais puro dos sentimentos. Ele estava lá, indo embora. Abraçado em um ninho de sentimentos (verdadeiros ou falsos) com outra.

Não, não, não...
Ela se perguntava o por quê, mas nada em sua consciência lhe admitia. Por que, de tantos, seria ele? E ela, perdida, com lágrimas na alma, ali permanecia.

Nunca mais havia desejado ele, mas o sentimento ali permanecia. Mesmo sabendo que, de todas as ilusões, esta seria a mais cruel de ser esquecida, acreditava que seus olhos eram dela.

Morreria na visão, se possível fosse...

PORTA OU JANELA?

Ela era dócil, mas não aparentava, pra quem a conhecia. Por mais que tentasse, suas palavras diretas e certeiras a dominavam, fazendo com que algumas pessoas se assustassem. E ela tinha um dom. Tinha dom de conhecer, de examinar no primeiro ato, cada jeito e olhar do outro. Talvez fosse por isso que falava tão rispidamente: Ela falava com a alma e pra alma.

"Um absurdo! Ninguém pode prever atitudes!"- Inconformava-se ela. Sim, ela podia. E não era algo tão sobrenatural como imaginava. Bastava olhar profundamente. Todos conseguiriam se não estivessem centrados nos seus "eus".

Assim, logo quando conhecia alguém, havia um tempo para o enigma se decifrar: Três dias, três semanas ou três meses, dependendo das horas aproveitadas. Não passava disto. Ela baseava-se em regras de comportamento e o período de camuflagem de cada indivíduo (que variava de pessoas, ambiente e situação).

Atrás de seus olhos negros, havia uma psicologia interessante, que determinava quem era quem, na classe de caráter, personalidade, jeito e gostos. Digamos que tudo está interligado com a pessoa. Estudando cada comportamento, vê-se que os indivíduos tem mais similaridade do que se pensa. Mas, nem tudo é completamente igual e previsível. Tem fatores externos que comprometem cada avaliação, como experiências, educações, etc...

Um bom exemplo que ela mantém é de uma de suas colegas de bacharelado. Completamente igual a uma outra pessoa que ela conheceu há algum tempo. Mesmo jeito, mesma aparência, vozes iguais e, com o tempo, a mesma antipatia criada. Isso não devia-se ao fato das igualdades físicas. Era mais a questão, previsível, de uma personalidade idêntica.

Ela nunca fez psicologia, seu sonho de infância. Nos caminhos da vida, achou a publicidade e se especializou em fotografias. Sorrisos, expressões, formas de rosto, tudo isso é detalhado em suas "brincadeiras" de menina.

Essa menina não é má, não é ruim. Enxergar os outros não é ser ruim. O seu único defeito, dentre tantos que o mundo possui e teima em ensiná-la, dia apos dia, é ir além. Intimizar ao máximo tudo o que possa ser oferecido.

Afinal, ela tem olhos!

CAMINHOS

Ela estava lá. Trancada por dentro, não pensava em mais nada do que em evolução profissional. "Não seria fácil"- ela pensava, mas nunca nada foi fácil pra ela. A vida ensinou que coisas muito fáceis eram pra pessoas muito incompetentes, que aceitavam tudo de primeira. Pra ela, tudo era um misto de problemas e complicações. E como sua mente era complicada! Não, não, os problemas não vinham dela, mas com ela, tornavam-se bem maiores e mais redondos.

Sempre teve uma capacidade incrível de "dar com a cara na porta". Por mais que quizesse algo, por mais que lutasse, não haveria jeito de contornar seu destino. Ah, destino! Ela o respeitava muito. Sabia do seu poder de comandar a sua vida. Porém, não se conformava.

Poucos dias haviam passado e a incerteza de que seu futuro estava ali, naquele escritório a atormentava. O ambiente era limpo e organizado. E o chefe havia tratado-a como colega, deixando a mocinha indefesa e necessitada de lado. Profissionalismo! Ela sorriu. Ela sorria. Seu nervosismo não deixava com que fosse além. Mas seu desejo era soltar aquela felicidade contida ao saber que seu currículo era muito bom pra vaguinha de recepecionista na qual havia procurado. Seu otimismo, guardado atrás de tantos "nãos" recebidos pelo caminho, enfim, aflorava.

Sua cabeça enlouquecia diante de um crescimento profissional considerado. Teria trabalho, teria dinheiro, teria liberdade financeira! Mas, calma... Ela ainda não sabia do seu destino. Não sabia se tudo iria ficar ao seu favor. A quem perguntar? A quem pedir?

E então, ela fechou os olhos...

BATISMO

Em crise com a sua consciência, ela ainda questionava-se pelo título dos escritos. "Olhos Pretos"? Não era uma insegurança, era mais uma questão de explicar, de aprofundar-se no que estava a ser exposto.

Fez uma retrospectiva da sua vida. E de tudo o que seus grandes olhos amendoados conseguira absorver nesses anos. Era muita coisa! E, neles, tudo se escondia. A negritude era o portão imenso e trancado de sensações. Afastava do interior pessoas curiosas, ao mesmo tempo que aprisionava observações notórias do mundo. Nada lhes escapou, nunca!

Visto sua enorme grandeza, não poderia, de jeito nenhum, arrancar-lhe outros significados, senão de poder, domínio, mistério e sabedoria. Isso explicava o conceito. Isso traria pra si, algo contemplativo, a olhos vistos.

Conformada em batizar suas novas palavras, ela notava estar só, sempre. Não haviam outros olhos a te vigiar. Teria que se conformar com visitantes desconhecidos que, ali entrarão pra observar, ler, e levar pra seus mundos algo tão escuro e simplório.

PRIMEIRA LINHA

Ela pôs-se a escrever. E, de seus olhos saíam lágrimas de felicidade. Enfim, podia ser livre, mesmo escondida, mesmo camuflada. Aquilo, para ela, seria uma espécie de salvação. Não podia sustentar um nome, nem uma origem, porque quebraria o conceito que ela tanto prezava. Enfim, ajetou-se na cadeira, olhou fixamente para a tela e começou.



A única certeza que havia era de que, ali, nascia mais uma obra de arte virtual.