Acenderia um, dois e três cigarros, mesmo que seus dedos pequeninos não conseguissem, sequer, segurá-los direito. Achava bonito fumar. E achava mais, algo como um status e uma maturidade que elevava, junto com a fumaça, pro mundo.
Tinha apenas 10 anos, mas já observava os adultos com a convicção de que, o que eles faziam era o mais certo a ser seguido. Portanto, o simples ato de puxar a fumaça e armazená-la na boca já valia a recompensa pelo gosto horrível que em sua lingua permanecia. Ela queria ser adulta.
Não sabia dos riscos que aquele ato tinha. Como saber, se em sua própria família todos praticavam? De início, deixava que a surpresa se fizesse. Achava que, quando sua mãe soubesse que começou a fumar, deixaria de vê-la como criança. E guardava o momento oportuno para lhe contar. Enquanto isso, trancava-se em seu quarto, com dois ou três palitos tirados do maço, e ia a janela, acender... Fingia ser mulher. Fingia estar fumando. Pra ela, aquilo valia mais do que brincar com suas bonecas.
Não lembrava-se de ninguém ter falado que não podia. Não lembrava de nenhuma conscientização em escolas, cursos e até em casa. Se todos fumavam, por que ela não poderia? A criança aprende o certo (e o errado) com os pais, mesmo que não saiba julgar os dois parâmetros.
Havia mais de duas semanas que sua brincadeira tinha tornado-se algo mais sério. Ao invés de deixar a fumaça amarga na boca, havia aprendido a tragar, levando-a a seus pulmões. Aquilo dava-lhe sensações de calmaria e tranquilidade.
Em um dos dias mais marcantes da sua vida, a porta do seu quarto abriu-se repentinamente, e sua mãe surgiu, parando, surpresa com o que via. Naquele dia, tomara uma surra sem entender. Quanto mais sua mãe batia, mais gritava "isso é pra vc aprender que não está certo". O cigarro foi arremessado pra fora do quarto, e o vício, que começava a se fazer, tirado da sua vida.
Anos depois ela compreendeu que a surra era tão somente o grito de socorro de sua mãe, que começou a fumar na imaturidade, e permaneceu presa ao tabaco pelo resto da vida.
Nunca mais brincaria de imitar os adultos...